IBTX

Arlysson Costa

Tudo começou em 2022, com uma gripe — a chamada influenza H1N2. Achei que era algo passageiro, mas comecei a sentir um cansaço extremo, inchaço nas pernas, e fui piorando a ponto de precisar me internar na minha cidade natal: Santa Luzia do Paruá, no interior do Maranhão, a 400 km de São Luís.

O diagnóstico inicial foi de derrame pleural. Passei por uma drenagem e fiquei 26 dias internado até melhorar. Quando tive alta, fui encaminhado a um cardiologista. Os médicos suspeitavam que a gripe tinha afetado meu coração. Após vários exames, veio a confirmação: miocardite por influenza.

Foram dois anos de tratamento com medicamentos, exames de rotina e consultas ambulatoriais. Achei que estava indo bem, mas meu corpo começou a dar sinais de novo: fraqueza, falta de ar, inchaços, indisposição. Fui internado em estado grave na UTI da minha cidade. Era sério. Corri risco de vida.

Fui transferido para São Luís em busca de um diagnóstico mais preciso e, quem sabe, um tratamento mais avançado. Durante um ecocardiograma, o médico me olhou e perguntou:
“Você já pensou em fazer um transplante cardíaco?”

Meu coração estava com apenas 14% de fração de ejeção. Ouvi, mas não quis acreditar. Esperei que, na consulta seguinte, ele dissesse que não era bem assim. Mas antes mesmo da próxima consulta, tive uma nova piora e voltei para a UTI. Foi ali que recebi a notícia definitiva: eu precisava de um transplante de coração.

A palavra “transplante” caiu como uma bomba. Eu e minha família ficamos sem chão, em estado de negação. Nunca tínhamos sequer cogitado essa possibilidade. Nem sabíamos o que significava de fato.

Mas o tempo era curto. Eu precisava ser avaliado por uma equipe especializada. Só que no meu estado não há centro transplantador e a doação de órgãos ainda enfrenta muitas barreiras culturais. Eu precisava sair dali. Era uma questão de sobrevivência.

A recomendação era ir para Fortaleza ou Recife, mas eu não conhecia ninguém nesses lugares. Foi então que surgiu um novo caminho — Brasília. Minha irmã mora lá há quase oito anos. E foi nesse momento que o Insituto Brasileiro de Tranplanstados, o IBTx, entrou na minha vida.

Conheci o presidente do Instituto, Robério Melo. Ele foi um verdadeiro anjo em minha vida. Me acolheu, me orientou, abriu caminhos. Graças a ele, conhecemos pessoas que nos ajudaram com o processo de transferência. Um dos maiores obstáculos era o transporte: o plano de saúde negava a UTI aérea, alegando que o procedimento podia ser feito no Maranhão — o que não era verdade. E o meu estado de saúde exigia urgência.

Foi por meio do IBTx que chegamos até a advogada Priscila Machado, que lutou incansavelmente por mim. Com sua inteligência e sensibilidade, ela conseguiu na Justiça a autorização para que eu fosse transferido.

No dia 19 de junho de 2024, depois de dois meses internado, cheguei a Brasília numa manhã fria, às 5h53, a bordo de uma UTI aérea. Fui direto para o Hospital Santa Lúcia Norte. A equipe já me aguardava. Refiz todos os exames e, após uma criteriosa avaliação, entrei com urgência na fila de transplante.

Foram 28 dias de espera. Dias longos, cheios de ansiedade, medo, incertezas, crises de choro e insônia. Mas também de esperança. Meu estado de saúde piorava. Os remédios já não faziam efeito. Eu sentia que estava no meu limite.

No dia 9 de agosto de 2024, recebi o maior presente da minha vida: um novo coração. Um coração que não nasceu em mim, mas nasceu pra mim. Fui o primeiro transplantado do Hospital Santa Lúcia Norte. Um marco para o hospital — e um renascimento para mim.

A equipe médica foi impecável. Cada pessoa — médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, pessoal da limpeza e da cozinha — cuidou de mim com dedicação e respeito. Depois de 1 mês e 15 dias, recebi alta no dia 19 de setembro. Foram 5 meses vivendo dentro de um hospital. Saí com um coração novo e uma gratidão imensa.

Hoje, estou bem. Voltei a me exercitar, a viver com mais energia. Agradeço todos os dias a Deus, à equipe do IBTX, aos profissionais do hospital e, principalmente, à família do meu doador. Num momento de dor, eles disseram sim. E esse sim ecoa em cada batida do meu coração.

Doar órgãos é mais do que um gesto: é transformar a dor em vida. É dar a alguém a chance de continuar vivendo, sorrindo e sonhando. Assim como aconteceu comigo. Foi um renascimento.